Rio de Janeiro – Quinta-feira, 14 de junho de 2007

Municipal respira ar contemporâneo

Coreógrafos brasileiros: Bailarinos da casa têm alguns bons momentos dançando criadores convidados


O programa Coreógrafos brasileiros do Ballet do Theatro Municipal recupera uma bem sucedida experiência de 1997. Se naquela ocasião, os coreógrafos convidados já carregavam uma grande bagagem de criações, nessa nova versão, coreógrafos experientes como Roseli Rodrigues, Henrique Rodovalho e João Saldanha são acompanhados pelas debutantes Marcella Gil e Priscila Albuquerque. Das cinco peças apresentadas, apenas duas foram criadas especialmente para a ocasião: Manipulações sobre as forças do vazio, de João Saldanha e Tão próximos, de Henrique Rodovalho. Novos ventos, de Roseli Rodrigues não é inédita e está desde 1999 no repertório da Raça Companhia de Dança, dirigida por Roseli. Já Caos’Arte de Marcella Gil e Folia de Priscila Albuquerque, ambas bailarinas da casa, já foram apresentadas, ainda que em estado embrionário, no espetáculo de encerramento do Primeiro workshop do Ballet do Theatro Municipal, no final do ano passado.
A peça de Marcella Gil inspirada na movimentação dos trabalhadores do centro da cidade apóia-se nos recursos da iluminação para o desenho dos espaços. A música se mistura a ruídos urbanos e as esquinas por onde circulam os bailarinos são sempre delimitadas pela luz. Ainda que a idéia seja interessante, a peça acaba por sofrer do pecado comum aos criadores iniciantes. Marcella Gil abusa do recurso da iluminação e não consegue dar um desenvolvimento mais rico à sua proposta em termos de movimentação. O encontro entre a dança e a vida cotidiana não chega aos corpos.
Ao despir totalmente o enorme palco do teatro, valorizando pela iluminação o fundo da cena e a passarela que atravessa a rua e liga o teatro ao seu prédio anexo, João Saldanha consegue inverter a perspectiva do olhar do espectador em
Manipulações sobre as forças do vazio. A boca de cena transforma-se em um fundo de corredor e o palco é deste modo travestido em estúdio de dança. Os traços anacrônicos da arquitetura do teatro ganham correspondência nos figurinos. As saias longas parecem remeter aos tempos da dança moderna. Este trabalho segue na linha de investigação das últimas criações de João Saldanha, ao trazer a dança como exercício do espaço, afastando-a da sedução fácil e do espetacular. Com apenas cinco intérpretes em cena, a densidade da dança consegue vencer a desproporção entre a presença humana e a arquitetura do lugar. O silêncio e as pausas valorizam os gestos de cada intérprete.
Folia, de Priscila Albuquerque dá conta do que se propõe. Circulando bem próxima do universo da dança clássica, a coreógrafa constrói uma peça correta, bem interpretada, mas sem grande pretensão ou ousadia. Em Folia, como também em Caos’Arte, ficam evidentes a seriedade, o empenho e o prazer com que todos os bailarinos defendem o trabalho de cada um dos criadores.
O ponto mais frágil do programa talvez seja
Tão próximos, de Henrique Rodovalho. A proposta simples apenas na aparência – mostrar ao mesmo tempo a proximidade e a distância entre a intimidade do teatro e sua vizinhança, a Cinelândia – não chega a se realizar em cena. O que se vê é ainda uma tentativa de contaminação de linguagens já que a movimentação tão particular do coreógrafo da Quasar Cia de Dança não parece minimamente consolidada nos corpos que dançam. A idéia fica restrita apenas à trilha sonora.
Novos ventos fecha o programa com elegância. A coreografia de Roseli Rodrigues ganha um tratamento preciso por parte da companhia. Talvez seja nessa peça em que os intérpretes se mostrem mais à vontade.
É pena, no entanto, que uma estréia tão importante para o Ballet do Theatro Municipal tenha acontecido numa matinê e no meio de um feriado. A boa qualidade do programa, que tem sua última apresentação hoje, merecia um lugar de mais destaque na agenda da casa.